Sentimentos calados

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Ao longo dos anos aprendi algo que não me orgulho nenhum pouco, mas hoje faz parte de mim e está presente na minha vida tal qual o ato involuntário de respirar. Aprendi a calar sentimentos. Eu os silencio o tempo todo, até mesmo quando não quero e de forma totalmente mecânica.

Não faço isso por mal. Na maioria das vezes é até para evitar que o mal aconteça. Existem sentimentos que não devem ser mencionados por que não seriam compreendidos, ou porque causariam fatalidades inimagináveis.

Prefiro evitar desavenças e complicações…

Engulo a raiva, mantenho xingamentos no pensamento, escondo paixões no peito e finjo não sentir nenhuma dor. Transformo desespero em paciência. Saudade em desapego. Tristeza em reflexão.

E quer saber? Eu sou boa nisso. Ninguém nunca duvida, ninguém nunca questiona. No fundo as pessoas se preocupam apenas com o que você aparenta estar sentindo. Ninguém se dá o trabalho de questionar o que você não exterioriza ao mundo.

Sei que quando escondo sentimentos cometo um crime, deixo de ser e de sentir quem sou de verdade. Mas, por que complicar uma vida – ou várias vidas – que já nem são tão fáceis? Prefiro calar. Existem partes de mim que precisam apenas ser esquecidas.

Palavras assassinadas

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As palavras podem machucar, acredite. Levante o dedo quem nunca sentiu o pesar verbal em uma discussão, ou em meio a uma conversa despropositada. Mesmo sem querer, somos bombardeados por frases que doem mais do que tapas. É inevitável, garanto a afirmação por experiência própria.

Já senti na pele a ardência de xingamentos, de desaforos, a até de bullying. Já ouvi gente dizendo que não significo nada, já presenciei a confissão de paixões que acabaram, já vivi a dor das palavras que sucedem o “adeus”. Já sofri, chorei e também já esqueci. Mas, é a dor das palavras não ditas que ainda não consegui superar.

Existem sentimentos no mundo que prefiro não racionalizar. Sei que é errado, mas considero mais “sensato” (veja bem falei “sensato”, e não “inteligente”) simplesmente deixar pra lá. Fingir que nada sinto, e seguir a vida como se uma gama indescritível de sentimentos não residisse dentro de mim.

Se não falo, os sentimentos, teoricamente, não existem, certo? Errado, eu sei. Mas, ao menos os ouvidos alheios nada sabem ou escutam. Admito que minha atitude não é nada madura e muito menos deve ser levada como um exemplo. Só que, acostume-se ou não, esta sou eu: Assassino as palavras antes que elas possam ser pronunciadas e jogadas aos cuidados indecifráveis do destino em forma de confissão.

Desenfreados

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Ok, vamos fazer um acordo? Eu te revelo alguns segredos, e você promete que os esquecerá. Deve fingir que não sabe de nada, ou que simplesmente não se importa. Não quero sua piedade, não quero despertar sentimentos. Desejo apenas que alguém esteja perto o bastante para me enxergar de verdade por míseros minutos do dia.

Não, não me diga depois de um tempo que não pode cumprir sua promessa. Não fale que as coisas saíram do seu controle ou que a situação mudou. Por favor, apenas faça o que combinamos. Qual a dificuldade em simplesmente se manter uma promessa?

Hoje vejo que me enganei quando acreditei que a parte mais difícil de um acordo é escolher as palavras certas para constituí-lo. Cada alínea pode ter sido meticulosamente planejada para cumprir objetivos específicos, e isso não mudará nada!

A verdade é apenas uma: Nenhum ser humano neste planeta pode acreditar que está perfeitamente seguro por trás de acordos que unem (ou separam) duas pessoas. As palavras nunca serão o suficiente para acabar com sentimentos desenfreados. Mas, talvez, a ausência delas sim.

Emoções literárias

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Tem gente que acha que os livros servem apenas para fazer você viajar pelo mundo da imaginação. Mero engano. A leitura, seja lá qual for, lhe proporciona patamares de inteligência e compreensão que vão além de tais aspectos preliminares. A descrição proposta pelos livros, por exemplo, ajuda a interpretar emoções da vida real.

Quando você lê sobre os sentimentos e atitudes de cada personagem de um livro. Quando se permite observar a descrição da felicidade, da tristeza, da raiva, você está aumentando a sua capacidade de percepção de tais emoções também na vida cotidiana. A leitura permite que a identificação das emoções seja mais rápida e precisa.

Ao ler sobre como “os olhos ficaram marejados de lágrimas”, ou sobre “rugas na testa apareceram em um momento de preocupação”, você está aprendendo a captar os sinais emitidos pela emoção. A linguagem não-verbal (aquela que não é falada, mas sim demonstrada por gestos) se torna descritiva nos livros, e lhe permite compreender o que não pode ser ouvido, apenas percebido.

As infindáveis palavras, as longas descrições são amigas daquilo que chamamos de intuição – que, na verdade, nada mais é do que a capacidade intelectual de interpretar gestos e ações com os demais sentidos humanos.

Parece científico demais mas, dentro da minha humilde visão de leitora fanática, as emoções literárias colaboram para a compreensão das infindáveis realidades que abrangem todas as vidas.

 

Nadinha mesmo

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Gostaria de não sentir nada! Nadinha mesmo. Viver pelo tempo que fosse inerte das emoções. Não queria sentir dor, nem amor. Nada de pena, e muito menos preocupações. Queria estar apenas ali… Existindo.

Me pergunto qual seriam meus pensamentos neste momento. Não estaria me lamentando por nenhuma dor ocasional. Não me corromperia pelas armadilhas do amor. Não choraria pelas desgraças do mundo. Não me preocuparia com os meus próprios problemas. Muito menos com os alheios. Estaria livre! Completamente liberta para apenas caminhar pela rua, ir ao shopping, ou tomar um banho sem ter que contabilizar mentalmente as minhas obrigações.

Gostaria de apenas uma vez ter espaço para ser a Marceli que não se precisa se preocupar com os outros e nem com ela mesma. Eu poderia cantar músicas velhas, ou simplesmente ficar parada pensando sobre questões filosofais. “Por que o céu é azul?”, “Qual o tamanho do universo?”, “Onde se esconde Deus?”, e tudo mais.

Se eu tivesse um momento desprovido de emoções, eu escreveria. Escreveria sobre a inércia, e sobre o nada. Sobre o vazio, e sobre a minha vontade de voltar, o mais breve possível, a sentir tudo de novo.

(Adam Lambert – Better than I know myself)

 

Como cristal

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Os relacionamentos são frágeis e sensíveis. Eles precisam de cuidados, atenção e respeito pelas suas devidas condições de existências neste mundo. Há sempre assuntos que precisam ser abordados com cuidado para que toda a confiança não escorregue e esparrame pelo chão.

Assim como os cristais quando quebrados, os relacionamentos também não tem conserto. Seja quando lascados ou espatifados eles perdem todo o encanto e admiração. Limitam-se a meras “coisas quebradas” que guardamos no fundo do armário por pena de jogar fora, e vergonha de exibir diante dos convidados e dos nossos próprios olhos.

Relacionamentos quebrados não podem ser colados. Quando trincados, eles ficam fadados ao destino da poeira, ou do lixo. Não são admiráveis, e tão pouco necessários para viverem uma vida inteira ao nosso lado.

(Kelly Clarkson – Stronger)