Verdades do coração

Era uma vez uma menina que mentia muito. Mentia sobre tudo. Mentia sem motivos. Dizia que morava em uma casa que não era dela, que tinha mais bonecas do que jamais vira e mais amigos do que estrelas existentes no céu. A menina contava tantas mentiras que até se perdia entre as suas histórias e não sabia distinguir o que era ficção da própria realidade.

Ela não via problemas em mentir, porque cada mentira tinha um propósito que parecia conveniente em determinado momento. Ao mentir a menina podia viver a vida que queria para si mesma. Ela fugia da realidade e conseguia ser qualquer pessoa em seu mundo de contos de fadas.

Uma belo dia, a mãe percebendo que a menina não parava de mentir, disse em tom de quem quer ensinar uma importante lição de vida:

– Pare de inventar mentiras, menina. Não tenha vergonha de ser quem você é.

Sentindo-se mal por contar tantas mentiras, a menina resolveu que já não tinha mais idade para mentir. Ela queria mudar. Deixou de lado as mentiras, esqueceu que elas existiam e passou a viver em um mundo onde só eram pronunciadas verdades da sua boca. Trocou as histórias fictícias de sua imaginação por frases concretas de tudo aquilo que passava em sua cabeça.

Ela se sentiu triste no início. Afinal, as mentiras tinham um papel importante em sua vida. Elas protegiam a menina do mundo e de tudo o que a amedrontava. As mentiras serviam de disfarce para tudo aquilo que a menina queria esconder ou não tinha coragem suficiente para admitir em voz alta.

Mas, depois de certo tempo, mentir deixou de ser um hábito. E a menina se sentiu orgulhosa disso, pois havia conseguido seguir o conselho de sua mãe. Enfrentou o mundo sem medos do que poderiam dizer de suas fraquezas.

A menina admitiu que morava na casa de madeira sem pintura da esquina, que tinha apenas duas bonecas e nenhuma melhor amiga. Engoliu o orgulho, esqueceu a fantasia e encarou a própria realidade.

Cada vez que a menina falava as verdades que passavam em sua cabeça ela se sentia livre como uma borboleta. A sinceridade de suas frases a libertavam do sofrimento que atormentava uma mente sem voz.

A menina gostava disso. Adora sentir que suas verdades tinha um espaço no mundo real e eram ouvidas e faziam sentido. Então, ela foi crescendo ao mesmo passo que suas verdades também amadureciam. Suas verdades já não eram apenas banalidades do dia a dia, agora elas falavam de amor, de gratidão, de raiva, de amor, de sentimento, perseverança, de sextos sentidos, emoção e experiência.

Agora a menina não era mais uma menina, pois havia se transformado em uma mulher cheia de verdades e determinação. A menina que contava mentiras havia ficado para trás, e no presente até servia de motivos para risos quando a mulher contava histórias sobre o seu passado.

O que a menina/mulher não sabia, entretanto, era que as verdades nem sempre são bem aceitas. Ela só percebeu isso com o tempo, quando dia após dia observava as pessoas se entristecerem quando certas verdades eram pronunciadas em voz alta. Ela notou que não era todo mundo que queria ouvir todas as verdades. E por mais que algumas pessoas dissessem não admitir mentiras, elas também não estavam preparadas para encarar a dura realidade que palavras verdadeiras demais podem proporcionar.

A vida de repente voltou a ficar confusa para a mulher e ela voltou a se sentir como uma menina. Ela sabia que devia falar apenas as verdades, mas não compreendia porque as pessoas se afastavam quando ela as pronunciava. Ela achava que era mal compreendida, porque as pessoas não pareciam entender que ela estava sendo apenas verdadeira quando falava o que pensava. Não fazia por mal, pelo contrário. Sempre desejou de todo o coração fazer o bem. Mas, a menina não conhecia mais as mentiras, ela usava apenas as verdades para proteger as pessoas a sua volta.

Por fim a menina ficou sozinha com suas verdades que já não era mais pronunciadas. Não existia ninguém perto o suficiente para escutar suas palavras. Então, em uma noite qualquer, não suportando mais a dor da solidão, ela se sentou no chão gelado com as pernas cruzadas, olhou para o céu sem estrelas, e perguntou a Deus o que fazer, porque ela não queria contar mentiras, mas também não podia falar suas verdades.

Ela não ouviu a voz de Deus, não recebeu nenhum sinal celestial. Mas, ela compreendeu que sua mãe não estava errada quando a ensinou falar apenas as verdades. Ao contrário. Sua mãe estava certa, pois as mentiras nunca poderiam trazer a paz de espírito que a menina tanto queria sentir. E, naquele momento, a menina percebeu que realmente se transformou numa mulher, pois entendeu que algumas vezes as pessoas não querem ouvir mentiras e tão pouco verdades. Em alguns momentos, tudo o que as pessoas precisam é do silêncio.

Então, a menina/mulher calou suas verdades e as guardou ao lado das palavras de sua mãe, bem no fundo do coração.

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Nossas máscaras

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Quais são as suas máscaras? Qual você veste quando não quer que reconheçam os traços da sua vergonhosa fraqueza? Qual você escolhe quando já cansou de ser você mesmo?

Não, não me diga que você não usa disfarces, e que tudo o que vejo é real. Nós dois sabemos que não é assim, e que você também precisa de uma dose de mentiras em sua vida. Mesmo que a intenção não seja a de meramente enganar os outros, nós devemos reconhecer que algumas máscaras também escondem a sua verdadeira face.

Não acho que isso ruim… Sério! Como poderia julgar as máscaras alheias, quando eu mesma sinto necessidade de me esconder de vez em quando? No fundo, acho que tanto eu quanto você representamos papéis milimetricamente projetados para agradar a cordialidade da conduta social. Mas, quem disse que queremos fazer isso o tempo todo?

Eu sei que existem momentos que jogamos tudo pro tanto, e dizemos “Ah, que se explodam as regras!”. Afinal, que mal há em se aventurar pelas incontáveis faces que podemos vestir e guardar no armário quando for conveniente? O que há de errado em querer ser uma pessoa completamente diferente daquela que nós dois representamos todo santo dia?

(Andrea Guerra – When will you see)

O que parece, mas não é!

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A gente tem essa mania feia de achar que sabe tudo sobre tudo. Nos sentimos espertos, donos da razão, e não admitimos que alguma informação ou intenção pode nos passar despercebidas. Mero engano, ou pura ingenuidade!

Não há como saber tudo sobre tudo, e muito menos conhecermos todas as verdades por trás das informações aparentes. A vida não é assim simples, e se fosse acho que até que perderia o sentido. O engraçado é que ainda somos soberbos, acreditamos que o simples fato de observamos uma pessoa se maquiando ou indo para a academia todos os dias – apenas citando exemplos – é o suficiente para sabermos tudo sobre a tal pessoa. Como podemos ser tão bobos?

Existe muito mais por trás de uma personalidade do que meras particularidades exteriorizadas. Somos um conjunto complexo de tudo o que mostramos, mas também do que escondemos. Logo, fica impossível dizer que sabe-se tudo sobre tudo, porque o que sabemos, de fato, é apenas uma infame parcela de uma realidade aparente, mas não necessariamente totalitária.

(Fuel – Shimmer)

Mentiras do “eu”

ReproduçãoSinto que nos enganamos o tempo inteiro, a todo instante, sem razão ou emoção. Imagino que não seja por maldade… Até acredito que essa é mais uma daquelas coisas que fazemos sem perceber, sabe? Mas, sim, não se pode fugir da verdade de que nós mentimos para nós mesmos e pronto, acabou-se a discussão!

Ignoramos nossos sonhos, fingimos que não existem ou até deturparmos os nossos próprios objetivos para que seja feita uma espécie de adaptação a tudo o que parece mais certo, ou quem sabe mais fácil. Fingimos ser quem somos por necessidades que variam entre a vergonha e o medo.

Há momentos em que não conseguimos conservar a tal da sinceridade que defendemos como imprescindível para a vida. É nessas horas que parece mais fácil adaptar-se a uma nova personalidade, a um “eu” moldado ao que as pessoas gostariam de ver, ao que todos aprovam e acham coerente para o dia a dia de uma vida moderna.

Se isso é certo eu não sei, não me sinto no direito de julgar… Até mesmo porque no fundo no fundo acho que eu também faço isso…

(Keyshia Cole- Fallin’ out)

Vale a pena?

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Será que vale a pena mentir, enganar, brincar com a verdade para driblar intenções, ações, sentimentos? Se vale não sei dizer, aliás é até melhor não se discutir. Mas, aqui entre você e eu, para mim mentiras não são aceitas em hipótese alguma, de jeito maneira!

Claro, há quem diga que “uma mentirinha não faz mal a ninguém”. Tudo bem, acredito que não faz mesmo lá de vez em quando não existe o objetivo intrínseco de brincar com sentimentos alheios…

Só que se esconder através de inverdades se guiando por propósitos escusos ou não, não é certo. Se mentira fosse algo bom não viria carregada de uma gama gigantesca de negatividade e coisas ruins. Mentira é mentira e nada muda isso. Não se esqueça, ok?

(30 Seconds To Mars – A beautiful lie)

Mentiras aceitas, verdades comprovadas

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Vivemos em um mundo estranho e incoerente. Vivemos em um mundo em que as mentiras são facilmente aceitas e as verdades precisam ser provadas, comprovadas, atestadas e assinadas por duas ou três testemunhas. Isso não faz nenhum sentido. Mas, é verdade, eu juro, acredite!

Soa até meio contraditório dizer que engolimos tantas mentiras, ao passo que temos grande dificuldade em acreditar no que é real. Parece que a verdade ganhou certo toque de “improvável”, e  não são raros os momentos que nos deparamos com ela na nossa frente de maneira escancarada e comprovada, e ainda pensamos: Será mesmo que não é mais uma mentira?

Penso que estamos meio saturados de enganações. E, mesmo que esta não seja uma justificativa aceitável, não sabemos mais julgar a sinceridade da dissimulação. Temos medo de sermos enganados, já passamos por isso e conhecemos muito bem a vergonha que vem junto com a pergunta:  Como fui  tão ingênuo para acreditar nisso?!

O aparente trauma social é de tamanha constância que chego até pensar que não sei o que é maior, o medo de cair em uma mentira, ou o receio das consequências das verdades. A resposta? Infelizmente, eu ainda não a tenho… Mas, e se eu soubesse você realmente acreditaria no que eu tenho a dizer?

(Norah Jones e Jamie Cullum – Turn me on)