O segredo do quadrado

Se há um “segredo” para a boa convivência que deve ser compartilhado é: “Cada um no seu quadrado”. Não sou muito fã desta expressão, mas penso que ela descreve muito bem o pensamento que desejo evidenciar.

Não há nada mais inconveniente do que ter que se aturar pessoas com as quais não nos sentimos bem, aquelas que por alguma razão nos incomodam com a simples presença, sabe? Acho muito chato mesmo quando se perde os limites do bom senso, e também da falta de respeito, e se invade o espaço do outro. Defendo a ideia de que cada um precisa se sentir em paz e seguro no seu território seja ele uma casa, apartamento ou a própria personalidade, e não há motivos capazes de justificar que outros extrapolem tais fronteiras.

A regra é simples e se existe e todos a conhecem é porque há uma concordância coletiva de que deve ser seguida, então porque se tornar “O Sr. Chato” quando há a opção de ser “O- camarada-que-fica-no-seu- quadrado”?

(Alicia Keys – Girl on fire)

Tolerar é preciso

Quer você queira ou não, nós vivemos em mundo sociável apesar de nem sempre nós mesmos sermos seres sociáveis. Posso mencionar, a título de exemplificação, que tem dias que acordo totalmente antissocial, sem a menor disposição para ser simpática com as outras pessoas. Porém, nestes momentos vejo que de nada me serve o mal humor repentino porque, como mencionei logo na primeira frase,  o nosso planeta inteiro vive de cordialismos sociais. Assim, o jeito é tolerar a saga da rotina diária.

Ao falar desta forma até parece que o verbo “tolerar” se agrega unicamente a uma conotação negativa. Mas a verdade – ao menos a verdade dentro daquilo que eu imagino proceder como real – é que a tolerância nem sempre é algo ruim. Apesar dela vir carregada com uma série de significados que beiram a necessidade barra obrigação de se fazer algo sem uma vontade propriamente explícita, tolerar também implica em dar o braço a torcer para as possibilidades que podem até conduzir a doces surpresas.

Tolerar é preciso, acredite. E não há nada mais importante na comunicação interpessoal do que agregar a tolerância às convivências sociais que cruzam a nossa experiência pessoal. Sendo assim, dito o conselho: Dê uma chance ao próximo, eventualmente tolere-o. Não custa tentar, não é mesmo?

(Tank – Emergency)

Convivências estranhas

Ouço diariamente pessoas falando que a gente já nasce fazendo uma porção de coisas até mesmo sem saber. Nascemos pagando impostos, contas hospitalares, preocupando nossos pais com choros na madrugada, e tirando o sono dos vizinhos desconhecidos. Porém, existe um item que também nascemos fazendo que eu gostaria, hoje, somente hoje, de chamar a atenção: Você, eu, e todos nós nascemos exercendo a arte da convivência.

Apesar de só aprender a pronunciar a palavra “conviver” por volta do segundo ano de vida, nós já conjugamos o verbo em cada experiência interpessoal com todo e qualquer ser humano que cruza o nosso caminho. Convivemos com os nossos pais, irmãos, família e amigos próximos, depois com professores, colegas de turma, da rua, do trabalho e da faculdade. Tudo isso, mesmo que nem sempre diretamente, afeta a formação de quem somos, do EU que estampamos para o mundo.

Quer você queira ou não, a nossa identidade pessoal é um reflexo nítido das convivências próximas e estranhas que permeiam a realidade. Assim, tenha certeza: Dentro de cada um de nós existe uma doação espontânea das convivências que fazem parte da nossa história de vida.

(Shinedown – Bully)

Sinceridade evitável

Fico pensando na sinceridade e só o que me ocorre é a certeza de que ela é realmente uma dádiva dos deuses. Afinal, quem senão um Deus ou algo próximo a tal patamar pode ser o tempo inteiro sincero sem restrições ou exceções? Difícil, heim?

Não pensem que sou do tipo enganadora que lança mentiras ao mundo sem escrúpulos ou culpa. Eu sou verdadeira e tenho lampejos significativos de sinceridade. Mas, o tempo inteiro? Sem chance! Tenho amor à vida, aos relacionamentos diários e, inclusive, a mim mesma. Não se pode ser absolutamente sincero hoje em dia. Isso destruiria a harmonia da vida.

Ser tão sincero seria no mínimo loucura, talvez, até suicídio. Imagine se eu fosse sincera e falasse o quanto me irrita o barulhinho que algumas pessoas, não vou citar nomes, fazem quando tomam sopa? Ou ainda, como fico nervosa quando a palavra “loiça” é pronunciada no lugar de “louça”. E, se eu resolvesse dizer que uma roupa definitivamente não caiu bem em uma conhecida? Credo, eu seria açoitada verbalmente e, me desculpem a sinceridade, mas eu prefiro fazer o gênero “falsa” em certos momentos. Algumas sinceridades precisam ser restritas aos nossos próprios pensamentos em nome da boa convivência.

(India.Arie – Ready For Love)

Relacionamentos

Existem aqueles fáceis, desinteressados e despretensiosos. Também há os difíceis de conviver, complicados de lidar e agradar. Outros, para provocar a confusão mental, são as duas coisas ao mesmo tempo. E, no geral, relacionamentos são assim: diferentes, únicos e geralmente imprevisíveis.

Por mais que existam fórmulas não tão secretas que, se seguidas a risca, garantem o sucesso, livros de autoajuda e conselhos psicológicos (ou psiquiátricos), é complicado mesmo lidar com os mais diferentes tipos de pessoas nos seus respectivos interesses. Seja com o marido, namorado, amigo, mãe, pai, avó ou cachorro, a gente sempre bate de frente e vez ou outra até quebra a cara no momento da convivência.

Mesmo que existisse uma espécie moderna de manual, os relacionamentos não se tornariam simples. As palavras faltariam para descrever todo e qualquer tipo de personalidade exposta nos seus mais diversos “habitats”. E, até se fossem criadas regras e exemplos de conduta, não seria possível abranger a totalidade das possíveis situações que se sucedem no dia a dia.

Relacionamentos são isso mesmo. Uma inconstância contínua, uma completa ausência de rotina, complicações do caminho, insegurança e medo. Sobretudo são relacionamentos, que assim como a vida, são sempre inconstantes e suscetíveis às mudanças.

(Música: Howie Day – Perfect time of day)

Dificuldades da convivência

Pergunto-me o que é mais difícil: Conviver com uma pessoa completamente diferente da gente ou, com alguém com a personalidade similar a nossa? Provavelmente, em um primeiro momento, eu optaria pela segunda opção. Mas, analisando cada detalhe minunciosamente, prefiro não arriscar.

Compartilhar momentos, mesmo que sejam poucos, com outro ser com características, manias e medos similares aos nossos pode ser muito complicado. Concordo que (talvez) seria mais fácil o entrosamento uma vez que ambos sabem do que o outro gosta ou não gosta e vice e versa. Mas, imaginem, por exemplo, juntar dois orgulhosos ou dois “barraqueiros” dentro de uma convivência bem estreita. Seria, na melhor das hipóteses, desastroso.

Por outro lado, se dentro deste mesmo grau de convivência uníssemos duas pessoas extremamente diferentes, tal como o vinho e água, sem dúvida alguma existiriam atritos. Quem sabe até divergências de opiniões e algum tipo de discussão ou duelo interno na tentativa de não exteriorizar todas as possíveis iras. É algo inevitável também!

Independente das pessoas serem extremamente parecidas ou drasticamente diferentes, desacordos e desentendimentos, mesmo que pequenos, sempre vão existir. É uma característica, não necessariamente positiva, do ser humano. Não há como mudar esta realidade ou lutar contra ela.

O melhor a se fazer, dentro da minha opinião, é tentar relevar, enxergar os acontecimentos pelo ângulo do outro ou, no caso de pessoas parecidas, pelo seu próprio ângulo, mas com menos prepotência. Brigas nem sempre podem ser evitadas, mas não custa nada amenizá-la quando for possível.

(Música: Shinedown – Simple Man)